O circo deve fazer-se ouvir PDF Imprimir e-mail
18-Mar-2009

Luisa MoreiraO “circo tradicional” e o “novo circo”, designativos um tanto polémicos mas que por força da sua generalização são aqui utilizados, são contextos marcadamente distintos e universos a muitos níveis inconciliáveis. Têm, no entanto, partilhado as hesitações do Ministério da Cultura na definição de uma política enquadradora.

Contributo de Luísa Moreira

1- O CIRCO DEVE FAZER-SE OUVIR ...

Através de uma actividade profissional em torno das artes do circo e do teatro, procuro contribuir para o desenvolvimento destas formas. Na cidade onde vivo, o Porto, enquanto interveniente ou enquanto espectadora, assisti ao crescente interesse das instituições culturais por esta área de programação. Sobretudo desde o Porto 2001- Capital Europeia da Cultura e tendo como palco principal o Teatro Rivoli, foram apresentados diferentes espectáculos de circo, muitas das vezes acompanhados por ateliers de formação em torno de disciplinas específicas.

Contudo, a procura de caminhos para o circo no nosso país, é moldada por dois vectores que importa considerar. De um lado existe o chamado "Circo Tradicional" que, fruto da desresponsabilização do Estado, enfrenta uma profunda crise artística e económica. Do outro, tenta emergir um "Novo Circo" mas este encontra enorme dificuldade de afirmação, permanecendo apenas acessível com carácter pontual e maioritariamente de oferta estrangeira.

O "circo tradicional" e o "novo circo", designativos um tanto polémicos mas que por força da sua generalização são aqui utilizados, são contextos marcadamente distintos e universos a muitos níveis inconciliáveis. Têm, no entanto, partilhado as hesitações do Ministério da Cultura na definição de uma política enquadradora. O novo circo não é sequer considerado uma área artística autónoma nos concursos de apoio do Instituto das Artes e os circos tradicionais sem acesso a subsídios, subsistem quase sempre num limbo de crise artística, social e económica.

Ao contrário do que por cá acontece, nos diferentes países da Europa o circo tem merecido a atenção dos poderes públicos. Em França, viveu-se desde os anos 70 o paradigma maior da renovação do género, ainda que tenha sido num ambiente de estagnação e sucessiva degradação idêntico ao que encontramos em Portugal, que surgiram os primeiros movimentos de ruptura que afirmam o "novo circo" como uma área artística emergente.

O "novo circo" é contemporâneo das duas primeiras escolas de circo da Europa ocidental: a École Nacionale Annie Fratellini e a École d'Aleis Gruss et Silvia Monfort. Estas instituições de ensino representaram uma primeira resposta às crescentes necessidades de formação da classe e travaram a asfixia que atingia globalmente o circo dinástico. Com elas transformaram-se gradualmente as formas de circulação das disciplinas do circo, que deixaram a esfera da família e passaram a integrar planos curriculares especializados e surgiram dezenas de associações e ateliers de circo de lazer, o que permitiu uma primeira tomada de consciência dos poderes públicos em relação à pertinência deste sector cultural.

Nos anos 80 a França viu o orçamento da cultura redobrado e pôde assim subsidiar formas artísticas completamente negligenciadas até aí e definir as primeiras linhas de apoio do estado ao sector. Em 1985 o Estado definitivamente impulsiona a requalificação do circo através da criação do Centre Nationale des Arts du CirqueCNAC, a primeira escola superior de circo em toda a Europa. O CNAC tem por missão formar artistas altamente qualificados, capazes de uma abordagem pluri-disciplinar que favoreça o surgimento e a afirmação das novas estéticas. -

Para além do CNAC, existem hoje em França várias outras escolas profissionalizantes e cerca de 550 estruturas que promovem ateliers de carácter formativo.

Fruto da acção profundamente articulada entre diversas instituições, ao longo das últimas décadas, extingui-se a ideia de que circo é "baixa cultura". A conjugação do esforço do estado no desenho e na implementação de uma política nacional para o circo originou não apenas novos artistas e companhias como permitiu ultrapassar a profunda crise que o «circo tradicional» atravessava. Actualmente em França, o circo é o espectáculo performativo mais frequentado, acolhendo mais de dez milhões de espectadores por ano.

As mutações do circo aconteceram também em países como o Canadá - que viu nascer o Cirque du Soleil, a empresa de espectáculos mais bem sucedida do mundo - e que tal como a Grã-Bretanha, a Bélgica e os países escandinavos possuem Escolas Superiores de Circo.



O CIRCO EM PORTUGAL


À semelhança do que aconteceu em toda a Europa Ocidental, o circo alcançou em Portugal momentos de glória e de reconhecimento público, mas não escapou à pressão da modernidade nem à concorrência dos novos atractivos culturais.

Se nesses países foram tomadas medidas de recuperação do sector, em Portugal, devido a um conjunto de deficiências estruturais, assistimos a uma profunda crise de criação artística que se manifesta na baixa qualidade de repertórios e espectáculos. Contrariamente ao que acontece com a ópera, a dança, a música e o teatro, nunca o circo obteve do estado qualquer apoio ou assistência.

Esta crise perpetua-se com o facto de os circos tradicionais manterem os mecanismos de funcionamento e criação que herdaram. Teoricamente, ao basear o espectáculo numa sucessão de números cujo propósito é estabelecer um crescendo de complexidade técnica, poderiam apenas ser bons os circos que conseguissem assegurar os melhores especialistas em cada área. Mas o défice cultural dos agentes, e as dificuldades financeiras resultantes da falta de público e apoios, impedem este tipo de desenvolvimento e modernização. O esvaziamento dos circos traduz-se, por isso, numa crise endémica com efeitos sociais e culturais profundos.


A TRANSMISSÃO E A FORMAÇÃO


Os cerca de 70 circos que inscritos na Inspecção Geral de Actividades Culturais - IGAC subsistem quase exclusivamente com base nos seus recursos familiares. A contratação de pessoal para cada uma das funções é inviável, o que obriga a que os circos contem com a colaboração intensa e não especializada de todas as famílias que nele trabalham num dado momento.

Há uma diferença essencial entre o circo, o teatro e a dança: toda a actividade de um circo é iminentemente itinerante. Esta forma de vida impõe por isso custos sociais directamente ligados ao nomadismo, em particular em termos de habitação e escolarização.

Para uma família de circo, colocar um filho na escola implica ter com quem o deixar e obriga ao seu afastamento. As crianças dos circos - com uma guia de transferência atribuída pelo Ministério da Educação - saltam por isso de escola em escola; essa é a única forma de acompanharem os seus pais. O sistema de ensino para as populações itinerantes revela-se assim completamente desajustado. Como será possível a estas crianças instruírem-se convenientemente se professora, manuais e colegas mudam semanalmente? Em consequência desta realidade a taxa de abandono escolar é enorme o que ajuda ainda mais à marginalização da comunidade circense. Por outro lado, e uma vez que os filhos cedo se tornam mão-de-obra da pequena economia familiar, a escolarização é muitas vezes vista pelos pais como algo que pode até ser prejudicial ao desenvolvimento do projecto circense.

Nos circos portugueses a aquisição de competências técnicas é largamente ministrada pela família. Aliás a aquisição de competências e a inserção profissional confundem-se, pois acontecem em simultâneo como se fossem uma e a mesma coisa.

Muitas pessoas provenientes das "famílias do circo" pensam em enveredar por outra profissão mas o facto de não possuírem a escolaridade mínima obrigatória limita fortemente a realização deste sonho. O talento embora importante não é um requisito obrigatório. Os pais ensinam as técnicas tais como eles próprios as apreenderam, o que faz com que os números de hoje sejam os mesmos de há cinquenta anos.


QUE FUTURO PARA O CIRCO?


O circo existe à imagem das condições que o viabilizam. Foi assim ao longo da História, e deste modo se explica a enorme diferença entre o nível de desenvolvimento do circo francês e do circo português.

As modificações estéticas e as transformações organizacionais que o circo tem vindo a sofrer nos diferentes países da Europa, não tiveram eco suficiente nos agentes do circo português. Neste contexto, se o alheamento do Estado subsistir, as perspectivas permanecerão as mesmas, com a agravante de a baixa escolaridade, a desqualificação profissional, a falta de rigor técnico e a ausência de competências específicas ao nível da gestão de uma empresa itinerante, acentuarem ainda mais a guetização do circo.

Mas, com o baixo capital escolar dos agentes qual o futuro do circo em Portugal?
A família, independentemente do perfil sociocultural que a caracteriza, não poderá continuar a ser a única unidade social que sustem a recomposição e continuidade do circo. Só através da criação de escolas será possível desenvolver verdadeiramente estas formas.



2-CONTRIBUTOS PARA UMA INTERVENÇÃO - TRÊS EIXOS PARA UMA FORMAÇÃO ARTÍSTICA


O circo tradicional e o novo circo são, como vimos, realidades diferenciadas. Alguns anos volvidos em torno desta actividade, a par do conhecimento das práticas culturais nacionais e europeias, levam-me a defender políticas públicas que favoreçam estruturalmente o sector, procurando que integração social, viabilidade económica e qualidade artística sejam vectores de intervenção.

A questão da qualificação profissional e da criação de escolas é absolutamente determinante para que tal aconteça, pois só a formação de artistas permitirá perspectivar a produção de espectáculos, clássicos ou contemporâneos, capazes de atrair públicos exigentes.

É sabido que, para além do risco, da poesia e do humor, é na excelência técnica e no virtuosismo que se apoiam as várias formas de circo. Aos artistas, de ontem e de hoje, é sempre exigido um trabalho quotidiano intensivo porque, em circo, a falta de consistência não é admissível. Daí que, numa primeira fase, as orientações devam incidir na criação de uma escola com uma formação de cariz profissionalizante capaz de gerar artistas com uma sólida preparação técnica e artística. Esta escola deve ter em conta as necessidades dos jovens não oriundos de famílias com tradição mas, também, as especificidades dos jovens oriundos dos circos de natureza familiar.

Tomando como princípio que a dinâmica em prol da mobilização dos estados e dos indivíduos para a fundação de estruturas pedagógicas e artísticas de apoio ao desenvolvimento das artes do circo encoraja novas formas estéticas que afirmam o circo como agente social e culturalmente vivo, numa segunda fase, uma política cultural em torno do circo deveria considerar 3 eixos de intervenção ao nível da formação:


Formação Superior - Diploma Artístico em Artes do Circo (3 anos)

O objectivo é formar jovens altamente qualificados capazes de uma abordagem pluri-disciplinar que permita o surgimento e a afirmação das novas estéticas;

 Cursos de Lazer

Os ateliers de iniciação às artes do circo permitem o acesso das crianças e jovens às praticas de lazer do circo. Estas iniciativas geram um aumento de públicos e favorecem a identificação de novos artistas.

Cursos de formação contínua para profissionais

Cursos que visam a reciclagem de profissionais do circo em disciplinas especificas. Destinam-se a jovens que se dedicam ao circo de criação e / ou a artistas do circo tradicional familiar.


Paralelamente, o regime de formação dos filhos de pais de profissões itinerantes deve ser alvo de uma reavaliação por parte do Ministério da Educação. Esta será bem mais eficaz se, como antes, os circos puderem contar com o acompanhamento de um professor que, a partir de programas curriculares específicos para as várias idades, ministre uma formação regular e estável. Só assim as crianças do circo poderão transformar-se em agentes capazes de melhorar a realidade que herdam.

Estas são pistas para políticas que necessariamente associariam os Ministérios da Cultura e da Educação mas também o do Emprego e da Solidariedade Social e que exigiriam uma vontade do Estado em reflectir na concepção e desenvolvimento de um circo nacional contemporâneo. Portugal tem muitos benefícios ao estabelecer compromissos com entidades e indivíduos disponíveis para partilhar experiências pedagógicas e artísticas neste campo. Estimamos que de futuro os poderes públicos acompanhem este indispensável esforço de reestruturação de um sector indispensável a uma verdadeira política cultural.


Luisa Moreira - Produtora Cultural



O "novo circo" propôs o corte com os códigos estéticos em vigor, tais como a circularidade do espaço, a dramaturgia fundada na ligação entre números sem uma relação "lógica" entre si, a estrutura do número que se edifica gradualmente do mais simples para o mais complexo para depois atingir um clímax, a estética visual saturada de vermelhos e lantejoulas, a música que sublinha a actuação do artista e o apresentador iluminado pela luz de um fallow spot.

Convém neste aspecto referir que o Chapitô promove um curso de Artes e Animação Circense que confere equivalência ao 12º ano de escolaridade mas esta Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo não é especificamente uma escola de formação circense.

 

 
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